Singral Cimeiro - Campelo (Figueiró dos Vinhos) - (Latitude 40.0408) (Longitude 8.23927) Altitude 673 Mts. -

quarta-feira, 29 de março de 2006

O Singral visto do ar...

Vista aérea do Singral.

Acção de limpeza de mato no Singral

No passado mês de Fevereiro uma equipa da protecção civil enviada pela Câmara municipal de Figueiró dos Vinhos na sequência de uma conversa tida entre o Sr. Presidente Eng. Rui Silva e José Farinha e Herminia , procederam ao desbaste de mato ao redor do lugar a fim de minimizar o perigo de incêndios no verão ,a aldeia teve a honra da visita do Sr.Presidente e de elementos dos Bombeiros . Acto que teve o nosso melhor acolhimento.

Agradecimentos a Matos de Carvalho

Este é o livro que foi gentilmente
oferecido pelo autor , e que
se tem revelado muito útil para
conhecer-mos melhor a região
e nomeadamente o Singral!
Os nossos melhores agradecimentos.

Alguns aspectos sobre a estrada de ligação ao lugar.

Aspecto da estrada
em março 2006.

Aspecto da estrada em
Novembro de 2004.

Algum património cultural

S.Tiago no interior da Capela
















ALMINHAS CAPELA DE S.TIAGO

Carta ao Presidente da câmara a propósito da estrada.


José João Reis Farinha
Singral Cimeiro
3260–225 Figueiró dos Vinhos
Telef. 236438699
Email: reisfarinha@sapo.pt


Exmº Sr. Dr.Fernando Manata
Presidente da Câmara Municipal
de Figueiró dos Vinhos


6 de Setembro de 2004
(Registada c/aviso de recepção)



Desde muito cedo senti um grande apelo às vivências nas localidades mais no interior, mas cedo fui ‘arrancado’ das minhas origens e foi, com cerca de três anos de idade, que me vi rodeado de cimento, asfalto e relacionamentos impessoais característicos das grandes metrópoles.
Após um percurso muito diversificado, tendo passado por várias grandes cidades, até no estrangeiro, eis chegado um dia em que um amigo me levou a conhecer a aldeia onde terão nascido os seus pais. Não sei se pelo seu aspecto selvagem ou pelo divórcio com o chamado ‘mundo civilizado’, rapidamente me enamorei pelo local. Era uma aldeia perdida numa das encostas da serra da Lousã sob a jurisdição do Concelho de Figueiró dos Vinhos – Singral é o seu nome.
Animado de um espírito pioneiro, cansado da vida da cidade e empurrado por uma situação de desemprego despoletado sem qualquer previsão, vi de imediato que aqui seria o local ideal para prosseguir a minha vivência. Após já ter investido as minhas parcas economias na recuperação de uma pequena casa, decidi, com a minha cara metade, dar um pequeno contributo para o repovoamento do interior – iniciou-se aqui um novo ciclo na minha vida.
Comecei a tentar conhecer os hábitos e gentes da região, assim como as forças vivas da mesma, até que, chegou a vez de me apresentar ao poder autárquico. Deste modo, após vários contactos informais, cheguei à fala com V.Ex.ª e, timidamente, mas com a convicção de que estaria a pedir algo que, ao invés de uma benesse, antes se trataria de um direito, fiz sentir a necessidade de um ‘acesso’ condigno a esta aldeia de modo que, não só as pessoas que cá estão em permanência, mas também os que cá vêem em visita mais ou menos regular, pudessem deslocar-se à aldeia em segurança e com alguma qualidade.
Assim, em Novembro de 2003 V.Ex.ª prometeu que iria proceder a arranjos ao acesso Alge – Singral. No Natal de 2003 já pudemos circular um pouco melhor no dito caminho graças a uma reparação de compromisso em algumas crateras do caminho, efectuadas pela autarquia, atitude esta que ajudou a reforçar a convicção de que a promessa feita por V.Ex.ª se iria cumprir. A promessa foi de que até Agosto de 2004 a estrada iria ser toda arranjada, não podendo, no entanto, ser toda asfaltada (seria só metade), a outra metade ficaria para outra altura, apenas seria arranjada e batida, isto por razões orçamentais e não por falta de vontade. Deste modo, desde Janeiro do ano corrente até 15 de Julho ( mais ou menos), um camião camarário foi despejando aqui e acolá montes de ‘gravilha’ ao longo dos 3,3 Km de trajecto, operação lenta que fez com que a primeira ‘gravilha’ fosse desaparecendo e ficando dispersa, enquanto a mais recente no topo do caminho ia criando dificuldades de circulação. Mas como era para uma causa nobre fomo-nos moldando à ideia e aguentando, na expectativa de os trabalhos a sério começarem.
Já em Abril, o Sr. Vice – Presidente Pedro Lopes me reiterou que a estrada iria ser arranjada o mais tardar até Agosto deste ano, tudo dependia de uma adjudicação que tardava. Lá fomos esperando, espalhando a notícia a todos os interessados, pois é uma obra ansiada e prometida á décadas e com muita importância para impedir a desertificação do lugar. Desta vez, e graças à expectativa criada por V.Ex.ª, estávamos todos convencidos que a obra ia finalmente chegar a bom termo.
Contudo, inexplicavelmente, constata-se que após uma breve incursão de uma máquina ‘niveladora’ que, atabalhoadamente, em meados de Julho, por aqui andou a espalhar a ‘gravilha’ que ainda restava, nem sequer as valas de escoamento das águas soube fazer, deixando antes a ‘gravilha’ excedente a entupi-las. Quando chegada ao Singral, conseguiu fazer algo ainda mais inexplicável: destrui-nos o único meio de captação de água que dispomos ( construção caseira), rebentando a conduta de abastecimento, o cabo eléctrico da bomba, e ainda danificando a fossa da minha casa que foi construída por mim com muito esforço e suor. Segundo julgo saber, por informação de um vizinho, pois eu estava e trabalhar em Castanheira de Pêra, até esteve presente um Sr. Engenheiro (?) e um Sr. Vereador.
É certo que um acidente qualquer um pode ter, mas o que mais me incomoda foi a total ausência de contacto connosco após este desagradável incidente. Estive três dia sem água e tive que ser eu e mais um vizinho a reparar os danos da captação da água; quanto á fossa continua danificada.
Já estamos em Setembro, e não houve mais sinais de vida desta equipa que viria arranjar a estrada, e quanto aos danos efectuados nem uma explicação!
Assim, depois deste preâmbulo longo e talvez fastidioso, pergunto a V.Ex.ª afinal que ‘volteface’ foi este? V.Ex.ª criou em todos nós no Singral, nos habitantes permanentes e temporários, falsas expectativas. Afinal gastou-se recursos em pessoal, máquinas e materiais (‘gravilha’) para nada. As chuvas já começaram e a estrada vai ficar igual em pouco tempo – a quem interessa esta situação? Nós, sinceramente, temos muita dificuldade em entender tudo isto, mas, se por acaso, a análise da questão não for como vemos, então gostaríamos que V.Ex.ª se prontificasse a esclarecê-la, para dar continuidade á confiança que os habitantes deste Concelho depositaram em si.
Mais acrescento que, até para quem leu o último Boletim Municipal, ficaria a pensar que as acessibilidades para o Singral estão consolidadas.
Uma coisa eu prometo a V.Ex.ª, não vai ser por tudo isto que me vou embora do Singral, farei tudo o que estiver ao meu alcance para sensibilizar quem de direito para que esta situação se resolva. Só espero não ter que recorrer á aquisição de um burro para fazer os 3,3 Km que medeiam entre o Singral e Alge até que isso aconteça.

Sem mais de momento, e na expectativa do seu melhor acolhimento, somos:
( 14 Subscritores)

O Boletim (actualmente abandonado e substituido pelo Blog)

Panorâmica da Aldeia


A povoação de Singral Cimeiro está situada nos contrafortes da Serra da Lousã e no extremo norte da freguesia de Campelo a que pertence administrativamente , é pois no lado norte , a primeira aldeia da região e ali têm limites os concelhos de Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera e Lousã.
Virada a nascente ,ergue-se a povoação numa encosta de suave declive e corre-lhe ao fundo uma pequena ribeira que ,depois de percorrer um longo e extenso vale,onde fertiliza as terras que a marginam, se vai lançar na Ribeira de Alge,junto da povoação deste mesmo nome onde tem a sua foz.
Em frente da povoação ergue-se ,majestosamente ,a cadeia de serras que dali se estende mais acentuadamente no sentido sul e limita as regiões de Castanheira de Pera e de Campelo ,abrigando em seus sopés várias povoações: Singral Fundeiro ,Searas, Molhas, Ribeira Velha, etc.
Apaisagem que naquelas elevações se disfruta é impressionante e verdadeiramente arrebatadora, sobretudo em dias de verão. Tudo ali é natureza de rude cenário pela braveza das serras, montes e colinas que em redor procuram o céu e recortam a linha das cumeadas; em baixo, nas encostas e vales , frondejam árvores ,tendo a primazia os pinheiros; e a luz que se derrama no alto dos montes ,atinge as colinas ,escoa-se por entre os vales luxuriantes de verdura, e desaparece ,já à tarde ,por entre sombras e como que tomada de saudoso despeito. E o cenário repete-se assim em cada dia que se sucede e em que o sol volta de novo a lançar sobre a paisagem a sua luz que vai tomando cores que se reflectem mais brilhantes do que ele mesmo. Tudo , enfim ,quanto ali se junta ,forma um belo quadro da natureza ,e só no Inverno essa beleza panorâmica se ofusca ,porque aos vales desce, então ,o nevoeiro.

terça-feira, 28 de março de 2006

A ainda tão desejada estrada...!

A Estrada Municipal de Campelo


(.....)
Foi em Janeiro de 1945 que assim a estrada chegou a Alge e que vencida estava mais esta batalha contra o isolamento daquelas povoações do norte da região. Mas isto, porém, não era ainda tudo. Também desde há muito tempo era
sentida a imperiosa necessidade de levar a estrada pela rua principal de Alge, serra acima, à povoação de Singral Cimeiro e assim também aproveitaria da mesma, a povoação de Searas.
E certo é que, após várias diligências e solicitações de naturais do Singral, quer à Junta de Freguesia, quer à Câmara Municipal, vieram a ter lugar em Maio de 1945 alguns simples trabalhos de terraplanagem, a partir do cimo de Alge, mas que depois pararam e assim essa terraplanagem... Em consequência do assim sucedido, houve logo razão para reclamar à Câmara Municipal a continuação dos trabalhos. E sucedeu mesmo que em 1947, para fazer o estudo da continuação dos mesmos, chegou, segundo notícia que temos, a ser mandado deslocar-se ao Singral o Sr. Eng.º Lemos de Coimbra... Que se terá feito a tal estudo ou se chegou a ser concluído não sabemos; o que sabemos é que a terraplanagem da estrada continuou parada por muito tempo, pois só em 1958 é que voltou a prosseguir e, desta vez, até mesmo com a utilização de um tractor que por cada hora custava 200$00 - preço então assustador e não fácil de satisfazer ou pagar... Valeu o contributo da Junta de Freguesia e o apoio a esta de donativos sobretudo de naturais do Singral, residentes em Lisboa.
Tem sido uma estrada sempre de simples terraplanagem e assim a bastar um inverno para a mesma ficar inutilizada e a Junta de Freguesia ter de ir tomando a iniciativa de mandar beneficiá-la; e mais uma vez isso aconteceu em 1962.
Conhecemos bem esta estrada ou quase primitivo caminho de Alge ao Singral. Sabemos por isso que só na curva de o mesmo ao cimo de Alge, a tomar ali o dorso da respectiva vertente ou ramificação da Serra da Lousã, é que a sua reparação e necessário alargamento serão trabalhosos, pois que a partir daquele local não haverá que fazer aterros e nem desaterros; o caminho é praticamente uma recta e assim quase plano e de ambos os lados ladeado de saudável arvoredo de eucaliptos, pinheiros e outro e, mesmo, sem nele haver necessidade de construção de quaisquer obras de arte (pontes,etc.).
Em tempos, já a Comissão de Melhoramentos do Singral solicitou à Câmara Municipal a construção da estrada e até, para o efeito, lhe fez a entrega da certa soma ou dinheiro. Ora não se compreende nem aceita que ainda no presente ano de 2001 o Singral continue sem acesso rodoviário capaz e sobretudo causador de desertificação ou êxodo dos seus habitantes...
A distância do Singral a Alge é apenas de quatro quilómetros e do Singral a Campelo, sede da freguesia, é de sete!... Percorrer a pé qualquer destas distâncias no Inverno ou no Verão, quer de dia quer de noite, para em caso de doença se ir ao médico, ou por outra qualquer causa ou circunstâncias, é bem doloroso,e, em caso de doença, é mesmo insuportável ou impossível! E não se verifica que exista assim humana vida.
Na medida das suas possibilidades financeiras e donativos também de naturais do Singral, mandou a junta de Freguesia proceder ali a obras de melhoramento essenciais, isto é, cimentar a rua principal da povoação e calcetar ou empedrar as ruas menores, isto já em 1991. Por sua vez, todos os naturais do Singral, que o puderam fazer, melhoraram, com obras, a casa onde nasceram ou de seus pais e construiram até outras e mesmo adequados locais de reunião ( casa de convívio e recreio, etc.), cuidadram bem da capela ou casa do Santo pacroeiro, S. Tiago, alindaram a povoação e por altura da festa religiosa também nunca se esquecem do seu Singral e por isso mais ali comparecem e vão estar cheios de sã alegria, animação e entusiamo.
Desde sempre se queixam da falta da estrada de bom piso e rápido acesso automóvel ao seu Singral, pois que , se existisse, as pessoas idosas ali queriam continuar e os menos idosos até os fins de semana as iriam visitar e também lá estar. Há bastante tempo que foi levada a luz eléctrica e o telefone ao Singral. Não se compreende e nem aceita, por ser realmente absurdo ou contrário à razão, ser assim e o Singral não ter ianda um ramal de estrada em boas condições até Alge! O qual muito contribuiria, até do ponto de vista turístico, para dar a conhecer, mediante mesmo pequenas excursões a partir de Campelo, também as belezas naturais e bem saudáveis do extremo norte da região, ou seja, do próprio concelho de Figueiró dos Vinhos...
No interior campesino ou rural não há progresso nem vida humana, mas só ruina, extinção e desertificação, se não houver até ele bom acesso rodoviário... Para quando, ainda por fases, a devida construção de boa estrada de Alge ao Singral Cimeiro ( de quatro quilómetros apenas) para que etsa povoação, e não só, à qual há já mais de vinte anos foi levada luz eléctrica e em 1989 já tinha telefone e boas ruas acimentadas e para cujas obras os seus naturais contribuiram com o donativo de 200 contos então entregues à Junta de Freguesia para que esta povoação volte à vida com o regresso a ela dos seus naturais e os descendentes destes, e assim a habitarem o seu bom casario, não só no Verão, uns dias, por ocasião da festa ali na capela de S. Tiago, e o Singral deixar de ser um lugar ermo ou despovoado...
(Inédito)
Algures - Julho de 2001

Mais elementos para a história de Singral Cimeiro

POR SINGRAL CIMEIRO

Nos números 78, 80 e 81 deste Jornal, respectivamente de Julho, Setembro e Outubro de 1988, secção “ Notícias de Campelo”, escrevemos nós que é no período de Julho a Setembro que na região melhor se pode desfrutar – no convívio e amizade das pessoas que sobretudo por essa altura lá vão passar férias – da calma e paz de espírito que todos queremos e muito apreciamos.
No número 78, convidámos então os naturais da região, e muito especialmente aqueles que nem mesmo em tais meses lá pudessem ir estar, a acompanharem-nos na visita, por lá, às aldeias, visita, aliás, que foi feita em versos e assim em estilo de algum modo poético e em jeito de também convidar o Turismo a ir lá fazer das suas, aparecendo e promovendo também lá os seus fins...
Indo daquela forma poética de povoação em povoação, quisemos nós ainda cantar uma vez mais a região, as suas aldeias, os seus templos de há séculos com as suas festividades religiosas e seus padroeiros; cantar as suas belezas naturais de que são espelho bem visível os seus outeiros, montes e vales povoados de urze, mato, eucaliptos, pinhais e outro exuberante arvoredo e, por sobre toda esta realidade, o seu céu azul durante o dia e divinamente luminoso e estrelado durante a noite; cantar os seus ares puros e lavados, as suas nascentes de água fresca e cristalinae, de todas elas, o seu "Nilo" ou Ribeira de Alge que, no seu rumerojar sem fim, segue a lançar-se no Zêzere e também na sua passagem a fazer trabalhar as seculares azenhas que ainda restam e encontra no seu percurso; cantar o ali maravilhoso romper da aurora e o pôr-do-sol, rubro em flor, o matinal canto da cotovia, do rouxinol, do melro e de outros alados; e, enfim, recordar pessoas e famílias da mais notáveis da região...
Quisemos tudo isto. E, leitor amigo, certamente se recorda de termos indicado a dita "viagem" na forma poética que vai seguir-se.
Descendo a serra, p'ra cá
Do Trevim, lá na Lousã,
Divagando sem ir lá...
Tudo corri com afã.

Que beleza tu encerras!
Teus braços de água estendes,
Regando bem essas terras
Com zelo que tu entendes...

Descem montes e quebradas,
Imergindo em arvoredo
Aldeias, quase encantadas,
Que me deixam mudo e quedo.

Lá no cimo alcandorado,
Mostra-se outro painel:
È Singral, bem moldurado,
Como esculpido a cinzel.

Pois bem. Nesta última quadra é bem nítido e compreensível que nos estamos a referir à povoação de Singral Cimeiro. Para que bem se saiba onde ela fica, vamos indicar a sua posição no respectivo contexto goegráfico e aind falar dela mais pormenorizadamente.
O Singral Cimeiro é a última povoação do limite norte da área administartiva da freguesia de Campelo. Dista ali, por estrada de terra batida para o trânsito de pessoas e veículos, uns quatro quilómetros da estrada da catraia ( a que passa lá da Lousã para Castanheira de Pêra), e está com idêntico piso de estrada a igual distância, para sul, da povoação de Alge.
Dista assim cerca de sete quilómetros de Campelo. E a corta-mato, isto é, por caminho de trilho através de montes e vales, fica a uns oito quilómetros de Castanheira de Pêra.
A povoação é de origem muito antiga, pois a sua fundação data de tempos imemoriaias. Emoldurada em floresta de eucaliptos e pinhais, ela ergue-se encosta acima a partir d epouca distância do sulco do vale que lhe serve de fundo. É por este vale abaixo que segue a Ribeira do Singral, curso de água permanente que nasce ali à ilharga da povoação no sítio chamado «Porto Espinho». Banha a povoação de Searas e vai desaguar na Ribeira de Alge, ao fundo da povoação deste nome.
Há ainda na Ribeira do Singral - dizem - belíssimas trutas. A explicação disto tem-se no facto de as suas águas não estarem poluídas e as margens da ribeira estarem povoadas de silvados que impedem que se vá a ela pescar e que servem assim de protecção às trutas...
Ao cimo da povoação, já perto dodorso ali da serra, pela qual segue a aludida estrada da Catraia a Alge, fica a capela de que S. Tiago é o padroeiro. Trata-se de um pequeno templo, muito antigo, de cuja construção não há memória.
Há no entanto notícia segura do passado menos remoto, menos antigo, de Singral Cimeiro. Pertenceu, bem como toda a sua região de Campelo, aos condes de Miranda do Corvo, e então chamavam-lhe «Casal do Singral». Pagava foro (tributo ou pensão pela posse e domínio útil da terra) àqueles condes. Supõe-se que foi à praça e passou à posse e domínio dos seus habitantes por volta dos anos de 1834, em consequência do triunfo e fortalecimento do liberalismo que também conduziu à abolição dos direitos de privilégio e herdade dos então senhores nobres.
Temos assim descrita, ainda que sumariamente, uma povoação antiga que parece existir perdida em plena montanha, mas nunca até agora ignorada ou simplesmente esquecida pelos seus naturais, pelos que nela pela primeira vez viram a luz do dia.
Efectivamente, muito especialmente para eles, seus naturais, o Singral Cimeiro é um lugar que dá saúde, vigor de espírito e tranquilidade de alma. Por isso, as transformações de progresso que eles próprios ali têm levado e promovido.
Talvez também crentes de que não há verdadeira paz de espírito e felicidade sem Deus, restauraram interiormente a capela verdadeiramente a preceito. No adro da mesma, e de forma a adequadamente protegê-lo, fizeram construir um muro e aí predomina o frondoso cedro à sombra do qual há bancos e mesa onde fazem retiro e convívio. Em regra, a festa em honra de S. Tiago tem ali lugar no último domingo do mês de Julho.
Após a festa religiosa, tem lugar a festa civil, abrilhantada por conjunto musical e grupo de gaiteiros. Por alturas da festa e meses de Verão, o Singral enche-se dos seus naturais e ali permanecem umas trinta pessoas. Todos são extraordinários na dedicação à terra que lhes foi berço.
Já desde há anos que o Singral Cimeiro reúne, se pode dizer pela mão dos seus naturais, boas condições para cada qual se sentir ali bem a passar férias. Com efeito, dese há uns dez anos que o Singral tem luz eléctrica. Há também telefone e piscina na bonita vivendo do Sr. Mário Lourenço.
Na povoação, também há abundante água em três chafarizes. O precioso líquido vem para ali de cerca de três quilómetros de distância, pois é captado no sítio do Porto Batisqueiros, à Catraia. A vinda da água para lá aconteceu há uns dezoito anos. Na altura, o Singral deu, em troca dela, certa área de terreno ao Sr. Manuel Carvalho, do Coentral, estabelecido com fábrica de alcatifas, tendo então ido ter com ele, para essa finalidade, o sr. Raul Alves, negociante de tecidos de fazenda.
Entretanto, e além destes referidos progressos, o Singral Cimeiro alindou-se. Dum modo geral os seus naturais têm conseguido melhorar e modernizar as suas casas ali. A povoação tem já bonitas vivendas, dotadas de todas as comodidades e, dentre elas, as dos senhores: Mário Lourenço, José Covas, Mário Pestanas, Américo Dias, Vitor Rosas, Américo Simões, Manuel Garola, Alfredo Lourenço e herdeiros de António Rodrigues dos Santos e Sr. Camilo Rodrigues Ferreira.
Além disso, a povoação está dotada de ruas cimentadas e limpas, melhoramento este para o qual os seus naturais contribuíram com duzentos contos, entregues à Junta de Freguesia de Campelo.
Como antes dissemos, o Singral, apesar de em plena montanha, é já uma povoação para se viver e passar férias, graças à exemplar e extraordinária enteajuda e sadia vontade e real determinação dos seus naturais.
Isto nos leva a concluir que, quem vive acordado no bem, sempre tem assim sonhos bons e faz bom trabalho... Mas para quando, ainda, a construção de estrada em devidas condições e para durar e trânsito de pessoas e veículos automóveis de Singral até Alge?!... e cuja falta é apontada como sobretudo a razão de ser do despovoamento ali dos seus naturais...

In "Jornal de Figueiró dos Vinhos", nº 91 de Agosto de 1989




Alguns elementos para a história do Singral Cimeiro

A povoação de Singral Cimeiro está situada nos contrafortes da Serra da Lousã e no extremo norte da freguesia de Campelo a que pertence administrativamente , é pois no lado norte , a primeira aldeia da região e ali têm limites os concelhos de Figueiró dos Vinhos,Castanheira de Pera e Lousã.
Virada a nascente ,ergue-se a povoação numa encosta de suave declive e corre-lhe ao fundo uma pequena ribeira que ,depois de percorrer um longo e extenso vale,onde fertiliza as terras que a marginam, se vai lançar na Ribeira de Alge,junto da povoação deste mesmo nome onde tem a sua foz.
Em frente da povoação ergue-se ,majestosamente,a cadeia de serras que dali se estende mais acentuadamente no sentido sul e limita as regiões de Castanheira de Pera e de Campelo,abrigando em seus sopés várias povoações:Singral Fundeiro,Searas,Molhas,Ribeira Velha, etc.
Apaisagem que naquelas elevações se disfruta é impressionante e verdadeiramente arrebatadora,sobretudo em dias de verão.Tudo ali é natureza de rude cenário pela braveza das serras,montes e colinas que em redor procuram o céu e recortam a linha das cumeadas;em baixo, nas encostas e vales ,frondejam árvores ,tendo a primazia os pinheiros; e a luz que se derrama no alto dos montes ,atinge as colinas,escoa-se por entre os vales luxuriantes de verdura,e desaparece,já à tarde,por entre sombras e como que tomada de saudoso despeito. E o cenário repete-se assim em cada dia que se sucede e em que o sol volta de novo a lançar sobre a paisagem a sua luz que vai tomando cores que se reflectem mais brilhantes do que ele mesmo.Tudo,enfim,quanto ali se junta,forma um belo quadro da natureza,e só no Inverno essa beleza panorâmica se ofusca,porque aos vales desce, então,o nevoeiro.
Como as suas irmãs da região,também esta povoação é muito antiga.Da sua remota existência nada conhecemos.Sabe-se,todavia, que o Casal do Singral foi comprado em hasta pública,em Figueiró dos Vinhos,há cerca de duzentos anos.
Possui um pequeno templo, capela de que é patrono São Tiago,que na localidade tem a sua festa religiosa todos os anos a 25 de julho.A actual capela não é a que primeiro ali existiu;a primitiva erguia-se,mais ou menos,a meio do povoado e da sua construcção não há memória.
Postos alguns pormenores de motivos panorâmicos e de localização administrativa de Singral Cimeiro,passamos agora a focar o problema de maior interesse para a povoação:trata-se da construcção da estrada de Alge a Singral Cimeiro.
Temos á nossa frente a cópia de exposição enviada sobre o assunto,no ano de 1948,à actual presidência da Câmara,por uma comissão de habitantes das povoações de Singral,Searas e Alge.
Nessa exposição faz-se referência às várias diligências que desde 1945 vêm sendo efectuadas com vista á construção da referida estrada,nela se dizendo até,que os respectivos trabalhos chegaram a ser iniciados pela Câmara da presidência do Dr. Barreiros e que a comissão contribuiu para o solicitado melhoramento com a quantia de dez contos que deu entrada nos cofres camarários e foi escriturada sob a rubrica: «Subsidio particular para a construção do ramal de Alge a Singral Cimeiro».E assim é que na exposição de que se trata e que foi dirigida em 1948 à actual presidência da Câmara ,aquela comissão diz ,textualmente,o que devidamente autorizados transcrevemos da cópia dessa exposição:
«...Pedem os representantes das povoações de Singral Cimeiro,Searas e Alge(além de outros melhoramentos) a V.Exª a conclusão do referido ramal,que tanta falta faz às referidas povoações que para inclusivamente pagar o imposto braçal e demais contribuições tem que andar vinte e tantos quilómetros a pé ,por falta de ligações de estradas».
Ora já decorreram cerca de quatro anos e ainda não foi atendida aquela petição, pois a estrada em causa não foi concluida,apesar de para isso terem sido entregues Dez Contos que estão na posse da Câmara e que a comissão considera suficientes para a realização do trabalho de que depende uma melhoria de situação das mencionadas povoações .A aldeia de Searas,por exemplo,está isolada e não possui qualquer caminho transitável.
Sem olharmos vesgamente as pessoas ou as coisas ,e porque má vontade não temos seja contra quem for,apoiamos a justa pretensão da gente daquelas povoações e, portanto,o desenvolvimento progressivo da nossa região,para que também pedimos aqui,a construção do ramal Alge-Singral Cimeiro.
(Texto retirado de “A Regeneração”,nº 817 de 1 de Dezembro de 1952)